À Taverneira…

Com o tempo, a gente aprende a lidar com aqueles dias em que nos sentimos miseráveis…
“Os miseráveis…” seria uma boa pedida…
Na ditadura religiosa da felicidade obrigatória, sou herege…
A melancolia te obriga a mergulhar em si mesmo…
Não há frivolidade na tristeza…
Não é aquela tristeza que clama por conforto.
É solitária, egoísta e birrenta.
Prefiro encarar todos os monstros no espelho, sentir a dor do flagelo…
Deixe-me lamentar por nada, por tudo e pelas coisas que não se pode mudar…
Blasfemar…
Preciso ver-me em cinzas para renascer…
Noite de céu roxo…
Minhas costas contra a parede gelada e úmida pelo sereno…
Em minhas mãos jaz um lápis…
Oh tempos, Oh costumes.”, assim disse Marcus Cícero, há muito tempo atrás.
Hoje, tantos séculos depois, seus dizeres ainda ecoam… Ao menos hoje vagam em minha mente, quase como um mantra…
O sereno solta uma leve fumaça, que vai descendo vagarosa e constantemente, dançando um ritmo pesaroso. Hipnose…
Os Livros perderam sua majestade, tornaram-se idosos esquecidos em um asilo, leprosos jogados em um canto…
De novo Cícero veio em minha mente: Oh tempos, Oh costumes!…
Perguntei-me: O que Edgar Allan Poe faria em meu lugar? Nos dias de hoje… Pobre Poe… Morreria de desgosto…
Mais uma dose, taverneira!
Não, senhor Bukowski, não me julgue entorpecida ou revoltada…
Prefiro o título de “observadora apreensiva”. Um tanto crítica, confesso…
Claro que ainda existe coisa boa, não tanto quanto a beleza desta noite… Fluido literário deveria ser sua denominação.
Perdoe-me, acabei me perdendo nos pensamentos. Não importa…
Onde eu estava mesmo?
Dei-me, por um instante, ao luxo de fazer uma viagem no tempo.
Dumas falava sobre um conde…
Maquiavel sobre um príncipe…
Não que me desagradasse essa conversa sobre nobreza, mas eu tinha ânsia de chegar logo ao meu destino, sentar num belo gramado e ouvir contos de Tolkien, como um neto ouve, atenciosamente, as palavras sábias de seu avô.
Preciso, com certa pressa, marcar uma consulta com o Dr. Robin Cook. Sinto-me mal.. Deve ser efeito de alguma toxina… Ou, uma piada de Bolaños…
Tour literário…
Os olhos vão ficando pesados, o tempo vai voando como uma libélula. Mas não quero dormir…
Mais um ou dois capítulos do que deveria ler, não posso parar agora…
Que hora deve ser? Tarde! Bem tarde… Não. Cedo. Ainda é cedo.
A lua tem, além de seu encanto visual, uma espécie de feitiço, que transforma…
Lua
Magnífico esse processo de criação…
O escritor se torna o deus de seu próprio mundo.
Faz chover, nevar, nascer, matar.
Faz o homem, a mulher, o minotauro, o demônio…
Faz edificações ruírem com seus dedos, e a árvore nascer diante de seus olhos…
Que merda de luz é essa acesa agora?  … O sol nascendo.
A lua vai repousar e levará com ela as boas idéias.
A aurora chega cortando, com precisão cirúrgica, a linha tênue entre a transcendência e a demência…
Passo de Mochileira do tempo para subordinada de uma empresa privada…
Abaixo os olhos, sinto a cabeça pesada. Passo a mão no uniforme…
Hora de dormir…

Claro e Evidente…

Para esquecer quem foi um dia…
Para lembrar o que será um dia…
Para saber que é agora…
Para esquecer que é por hora…
Olhos abertos, enxergando as falhas…
Olhos fechados, relevando os foras…
Encontrar equilíbrio…
E se aproximar do abismo…
A lucidez…
A loucura…
Silenciar atritos…
Leve e desembaraçado…
Romper o padrão…
Para convencer de que estava certo.
Para converter o que estava errado…
Acreditar nas próprias mentiras dizendo somente a verdade..
Contrariando idealizações…
Convertendo bandidos em santos…
Santos em pecadores…
À primeira vista.
Ou por repescagem…
Questionar as evidências.
Clarividência.
Ser triste e se deprimir com canções e livros…
Para alegrar as estantes e os ouvidos…
Concordar com o terapeuta…
E opor-se ao óbvio.
Superficialmente…
Profundamente…
Sem segredos e âncoras, fixar-se nas palavras…
Achando graça dos defeitos…
Condenando as diferenças…
Contando seus dias…
Empenhando toda a concentração nos números…
Esquecendo onde você estava, e sumindo da sua vida… Somando apenas seus dias.
Pensando em ficar para sempre do jeito que for.
Ainda que seja por um dia…

NÃO QUERO MAIS. – Luciana Silva Lua

Não gosto de flores
Já jantei fora descalça
Já coloquei adoçante num vinho de 50,00 e duas pedras de gelo por favor? Obrigada…
De fina somente minhas canelas
De grossa, minhas coxas em meus monólogos em megafones direcionados
Não sou inteligente, mas sou esperta.
Não sou culta, mas “seio lê e entendê o que leio”
Não sou escritora, agricultura e tb nunca peguei chuchu na cerca
Não sou urologista ou proctologista, mas já fiz tanta gente se cagar e se mijar de rir à toa na minha frente
Não sei bem de muita coisa, mas sei muita coisa do bem
Aprendi que que o que quero não conta tanto quando quando aprendi o que NÃO QUERO MAIS.
O que eu queria mudou e muda o tempo todo.
Mas o que não quero, nunca mais reli pra não pensar
Quero ser levada pra jantar e ser pega em casa, foda-se a feminista peluda ou vou sair pelada.
E não quero pagar a conta
Quero guardar pra tomar meu vinho com amigos.
Quero beijar e chupar no primeiro encontro pra limpar a boca com guardanapo de cetim pq sou fina e elegante e agradecer com amém, afinal de contas, sou puta de família!