A PARTIDA por Luciana lua

beep beep boop

 

 

No andar mais alto de um prédio qualquer, olhando pela janela, embaçada pelo mal tempo lá fora, ele imaginava a vida de cada pequeno, minúsculo e insignificante transeunte, e de repente lembrou-se porque sempre apreciara vê-los à aquela distância.

Toca o vidro quase em transe, mãos espalmadas marcando o vidro, olhar distante.

Distancio-se finalmente da janela e foi até o telefone, efetuar suas ligações rotineiras.

–          Alô?

–          Oi…sou eu, ela está ai??? Posso falar com ela???

Silêncio do outro lado.

–          Você deveria procurar um médico…urgente! – logo em seguida desligam.

–          Alô??? Alô????

Olhando para o telefone, absorto em pensamentos, ele ouve a campainha tocar.

Comida para viagem, praticidade, preguiça e isolamento, mais uma vez sinônimos em sua vida.

Comeu em silêncio, este, sutilmente intercalado pelas gotas de chuva na janela.

Uma estranha paz o invadia, quase que inconsciente, ergueu-se , tomou nas mãos um livro com dedicatória dela, e pôs-se a lê-lo pela incontável vez, e  recostado em sua poltrona olhava a mesa posta  ha semanas e os brinquedos ao redor da mesma, os quais desviava com meticuloso cuidado, todos os dias.

Suspirou fundo e se perdeu em pensamentos por alguns instantes.

Sempre odiara  os gritos dela pela casa e seu cabelo pela manhã, os brinquedos espalhados e a triste mania de não obedecerem no instante em que ordenava.

Voltou seus olhos novamente  para o livro, que já sabia de cor, mas assim mesmo, não trocava, e tentou levar seus pensamentos para outro lugar.

Mais um dia se passara,  e mais uma vez, sem que notasse havia  adormecido na velha poltrona, afinal de contas, as coisas dela  ocupavam mesmo a cama toda.

Horas se passavam, dias, semanas e sua rotina diária nunca mudava…

–          Alô?

–          Oi, sou eu de novo, posso…

E antes mesmo que pudesse dizer algo, desligavam.

Tentava novamente, s/ êxito, ninguém atendia. Deixava recado:

–          Por favor, me deixa falar com ela, diz pra  ela atender e  que quero saber das crianças..

Nunca tinha retorno.

Sua rotina se repetia incansavelmente, olhos perdidos, barba por fazer, longas noites sem dormir e outras tantas, olhando para o telefone a espera da voz dela, caso contrário, desligava. Inclusive as mensagens, apagava sem ao menos ouví-las.

Não chorava mais, não saía mais, não lia ou recolhia  suas correspondências.

De repente ouviu um barulho na porta.

Se ergueu em sobressalto e pensou: É ela, só pode ser ela, voltara, estaria ela com as crianças? Ou viera sozinha para primeiramente, conversarem – A porta lentamente se abrindo – Será que viera para passar a noite, para depois pela manhã, irem juntos pegar as crianças??? Depois resolveremos isso, enquanto tomamos um bom vinho… mas lembrou que estava péssimo, magro, pálido, desajeitado, não tirava aquele hobby ha algum tempo, passou então as mãos trêmulas pelo cabelo, na tentativa de parecer menos desajeitado.

Ouviu um misto de passos e chutes em montes de papéis, na tentativa de conseguir fechar a porta novamente.

Quando olhou, avistou dois homens no meio da sala, um com alguns papéis e seu médico.

Seu olhar se transformou em puro ódio, sentiu-se traído, invadido e aos berros dizia:

–          Saiam da minha casa!!!

–          Calma…o porteiro nos deu a cópia da chave, você sumiu, não retorna os telefonemas, não lê suas correspondências e não tem comparecido as consultas, fiquei preocupado…

–          Saiam daquiiiiiii!!!

–          Eu falei com os pais dela, você tem ligado quase todos os dias, você sabe que não devia, pois…

–          Não quero ouvir você…fora da minha casaaaaa!!!

–          Infelizmente, tínhamos que vir para trazer uns papéis que…

–          Não leio, nem assino nadaaaaa – pensou com raiva – Ela mandou os papéis de divórcio, não vou permitir que saia da minha vida assim com meus filhos…

–          Ouça você tem que aceitar, mas você precisa de ajuda, já faz semanas que…

E berrou, jogou tudo o que podia na direção do médico e do advogado, e se afastou dando-lhes as costas, ofegante.

–          Lamentamos muito por você, vamos deixar os papéis, quando lê-los, pode nos ligar e o ajudaremos no que for preciso.

Assim o  fizeram…

Deixaram sobre a mesa,  os respectivos cartões de contato e um envelope contendo, um testamento e três certidões de óbito.

E foram embora.

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