Hospedeiros por Aline Telles

Hospedeiros…
O ímpeto é um demônio que instala-se dentro da gente.
Assim como nos filmes, não é fácil expulsá-lo.
Faz do nosso corpo confortável morada.
Afasta os móveis, arrasta o sofá, reorganiza a cozinha, esparrama-se nas cobertas sem a menor pressa de levantar.
Acende um caldeirão fumegante no nosso estômago.
O fogo do nosso inferno particular é difícil de apagar…
A sala é bonita, decorada com muito bom gosto em nossa traqueia. Diplomas na parede atestam o talento.
Dominá-lo não é algo fácil… Lembra-me aquela cena do filme “O exorcista”. Expulsar um demônio pessoal é tão complicado, que não há garantias de que todos se salvem no final. Nem mesmo a gente…
Dominá-lo não é certeza de leveza imediata. Esta é uma sensação que somente será notada a longo prazo…
Inicialmente, sentimos um incômodo na garganta… Um caroço do tamanho de uma laranja.
É uma prática que necessita conhecimento profundo na ciência da pacientologia, e de acordo com os últimos estudos realizados na área da Chatoslogia, logo podemos prever que trata-se de um trabalho extremamente delicado e que exige enorme dedicação.
Paciência… Paz & Ciência – Ciência da paz. P-A-C-I-Ê-N-C-I-A.
A informação chega-me calma, devagar, como se a leveza do silêncio aliviasse o peso da morte…
Os lábios mexem-se mudos. Na mente, um filme antigo em preto-e-branco na tarde nublada.
A remoção do ímpeto, é na verdade uma prática diária na vida de qualquer indivíduo.
Quando digo R.E.M.O.Ç.Ã.O, não pretendo somente me referir a prática de REMOVER algo. A ação ou efeito de remover ou ser removido. Não.
Vamos as vísceras da palavra… Vamos lá… pronunciando:
R-E-M-O-Ç-Ã-O.
Vou experimentar algo novo…
R-E-E-M-O-Ç-Ã-O (Sacaram?).
A remoção do ímpeto, não consistiria apenas em removê-lo.
Questionar-se. Isso é importante. “_Porque e pra que devo fazer isso?”
Avaliar o que vai ser dito/decidido… Saber se realmente precisa ser dito.
Vou dar um exemplo:
Quantas vezes enfiamos os pés pelas mão num momento de fúria ou de extremo entusiasmo, para depois percebermos que uma ação muito mais simples ou simplesmente a inércia dela teria sido capaz de resolver sem causar devastação?
É como se destilássemos toda a situação novamente, em milésimos de segundos, atentando para outros ângulos e perspectivas da situação em questão.
Sem permitir que o ímpeto tome conta das nossas ações. É como se convertêssemos o ímpeto em consciência…
Reemoção… ato de sentir novamente… Repensar… Reviver…
O ímpeto não é um bom hóspede/inquilino…
Com o tempo, a casa estará em destroços.
O encanamento entope, a ventilação é ruim. Falta ar. A pintura descasca. Os cômodos tornam-se pouco aconchegantes. Há goteiras, mofo… Uma casa abandonada.
O visitante incômodo, após a devastação, vai embora como um inquilino que se vai e não se responsabiliza pelos prejuízos, dando lugar apenas para o vazio e a sensação de que tudo poderia ter sido diferente.

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